Depois que
o Dia em que a Terra parou terminou, a Terra parece que começou a girar infinitamente mais rápido e, ao mesmo tempo, lenta feito uma lesma. Nossa vida virou de cabeça pra baixo. O Marcos tirou férias forçadas do trabalho, para dar conta de me visitar todos os dias na UTI, e cuidar de toda nossa vida sozinho... gerenciar a casa (graças a Deus que nossa assistente deu uma forçona), cancelar meus milhares de compromissos, providenciar isso e aquilo, atender aos pedidos dos médicos e da UTI e dar atenção pra Fabíola: cuidar de todo o seu mundo que, há essa altura, também ficara de pernas pro ar: mamãe foi fazer um exame e nunca mais voltou! Sem contar que seu aniversário seria na semana seguinte. Ainda bem também que tivemos aquela força dos avós, tios e alguns amigones super especiais que estavam o tempo todo disponíveis pra cá e pra lá. Ah, e a festinha que a Keyla armou pra ela com os amiguinhos da escola, de última hora, já que a festa oficial havia sido prorrogada por tempo indeterminado, foi sensacional! Sem contar a força dos amigos e parentes que correram com o chá de bebê para o João, que havia sido cancelado, na minha internação na véspera do dia marcado.
E tudo isso regado a um medo descomunal de tudo o que estava acontecendo. Não sabíamos direito o que estava acontecendo... os médicos nos explicavam tudo, mas eram coisas novas pra nós. Primeiro, a suspeita de Embolia Pulmonar. Nunca tinha ouvido falar e não fazia ideia do que se tratava. Aí veio a suspeita da Hipertensão Pulmonar, diagnóstico mais plausível e posteriormente confirmado pelo cateterismo. Também não tinha uma única pista do que era e do que isso significava. Só a família e os amigos, por meio do Dr. Google, que já estavam mais a par do assunto e em pânico contido, escondido de mim.
A cada troca de plantão médico da UTI, nos primeiros dias da internação, os doutores vinham ao meu leito e me faziam várias perguntas sobre mim e sobre possíveis causas dessa doença. Mas tudo o que me perguntavam tinham meu não como resposta, e saíam coçando a cabeça, sem entender o que se passava comigo, ou o motivo pra eu estar naquela situação. Haja exames de sangue. Tinha um em especial que fazia todo final de madrugada, a gasometria arterial, conhece? Tirar sangue da artéria, pelo pulso... gostoooooso! Não recomendo a ninguém!
Bem, conseguimos autorização da chefe da UTI para que a Fabíola pudesse me fazer uma visita, no corredor, no dia do seu aniversário: 30 de março. O Marcos providenciou o presente que decidimos dar e me levou um dia antes da visita, para que eu pudesse dar a ela. No dia, o pessoal da enfermagem me conseguiu uma cadeira de rodas e um cilindro de O2 para que eu pudesse ir até o corredor externo da UTI encontrá-la. Foi muito emocionante, mas fiquei com pena dela... não sabia o que seria mais positivo: ela me ver ou não me ver naquela situação. Mas fomos lá e ela ficou com uma carinha de assustada, sem entender direito o que estava acontecendo comigo, me vendo naquela situação. Adorou o "levetoque" (laptop) que ganhou, e logo pediu pro pai que queria ir embora comprar pilhas para o brinquedo, rsrsrs.
.jpg)
Durante todo esse período, os médicos, juntamente com minha ginecologista, monitoravam o bebê - eu estava com 32 semanas de gestação, mais ou menos. A boa notícia é que o bebê sempre estava bem! E já tinha uma perspectiva de ter atingido 2 kgs, então os médicos decidiram fazer o parto, para que eu não piorasse, para preservar o bebê e para que eu pudesse fazer os exames mais elaborados e tomar os medicamentos que não poderia, estando grávida.
Os 3 dias que antecederam o parto foram os mais cruéis de todos... não me falavam abertamente sobre os riscos da cirurgia, mas sabia que eram grandes. Perguntei pra minha ginecologista se tinha risco, e ela, meio sem graça, falou que sim, sem entrar em detalhes. Foram 3 noites péssimas e 3 dias com a cabeça num trabalho de revisão que, pode-se dizer, salvou a minha vida naquele momento - ainda bem que a chefe da UTI me autorizou usar o notebook e fazer aquele trabalho, senão acho que eu estaria num hospício agora, rsrsrs. Foram 3 dias de muito choro contido naquele cantinho da UTI.
Até que chegou
o grande dia da cesárea. Tomei um banho logo cedo e desci para o centro cirúrgico. Todos - amigos e familiares, aguardavam do lado de fora, ansiosos por tudo o que estava por vir. Todos tinham ciência da gravidade da cirurgia e da incerteza dos médicos quanto ao que aconteceria durante o procedimento.
Ainda bem que minha médica usou de toda sua habilidade e técnica - e fé, naquele dia. E ainda bem que Deus resolveu naquele momento que não era minha hora... acho que minha missão por aqui ainda não terminou...
game not over yet... ufa!!!
A cirurgia foi um grande sucesso - rápida como tinha que ser... só lamentei não ter dado para fazer a laqueadura, mas foi a orientação da pneumologista: que tudo fosse o mais breve possível.
Após a cesárea, que aconteceu com anestesia geral, subi de volta pra UTI, desacordada e entubada. Acordei lá pelas 16h e logo fui extubada.... ARGHHH... tirem esse tubo daqui!!! Ufa!!! Acordei.... estava tudo bem... e logo tive ótimas notícias sobre o João, que nem precisara ir para a UTI Neonatal, conforme havia sido previsto e programado. O pessoal nem acreditou quando percebeu que era ele no berçário, porque ninguém esperava vê-lo alí.
Fiquei bem nos dias que se passaram e, 2 dias depois, tive alta para o quarto para poder conhecer o meu filhote. Final feliz. Por 3 dias. As enfermeiras do berçário, que já me conheciam por terem que ir na UTI escutar os batimentos do bebê todos os dias, me deram uma colher de chá e levaram o João para eu conhecê-lo logo que cheguei no quarto, sexta-feira à noite, já bem tarde. Fiquei um pouco com ele naquela noite e no dia seguinte todo. Já no domingo, ele não veio, porque precisou ir para o banho de luz para tratar de icterícia.
.jpg)
Na segunda-feira, quando o telefone tocou para avisar-nos que ele estava recebendo alta do banho, eu estava sendo socorrida no quarto, com uma pré-síncope, e indo de volta para a UTI. Não sei se era o caso, mas tive a nítida sensação de que estava morrendo. Não conseguia levantar os braços, nem me mexer e tudo parecia se esvair na minha frente... bem parecido com aquelas cenas de filme em que as pessoas estão morrendo. Acho que foi o momento de maior medo em toda minha vida.
Já na UTI chegou o horário de visita e não queria que o Marcos e minha mãe entrassem e me vissem daquele jeito, mas não falei nada - até porque não conseguia falar. Eu só conseguia olhar para eles e sabia o quanto estavam preocupados. Eu tinha que tentar comer o lanche, mas foi o pão mais difícil de toda minha vida - levava, lentamente, pedacitos pequenos à boca, um de cada vez. Depois de algumas horas comecei a melhorar. Mais uma vez Deus me olhou e deve ter dito: "calma aí que você ainda tem coisas a fazer!". Foi nessa hora que fiz minha promessa, ainda não cumprida.
Nesse dia os médicos decidiram que seria melhor que eu me transferisse de hospital, para um local onde eu pudesse fazer os exames que precisaria sem ter que me locomover de ambulância pra lá e pra cá, e onde teria uma equipe especializada em Hipertensão Pulmonar para me tratar. Foi aí que me mandaram para o Beneficência Portuguesa de SP, para as mãos da equipe da Dra. Jaquelina, minha anja da guarda (juntamente com a sua equipe maravilhosa: Dra. Roberta e Dra. Alenita). Cheguei lá na madrugada do dia 11 para 12 de abril de 2011.
Outra etapa...