Cheguei ao Beneficência Portuguesa de SP de madrugada. Fui encaminhada à UTI, que era bem diferente da que eu estava. Fiquei num quarto com isolamento, porque era a vaga que tinha. Nele, havia 2 camas, mas a outra ficaria vazia por 1 ou 2 dias.
Logo que fui acomodada, um funcionário, que não sei bem se era técnico de enfermagem ou enfermeiro, veio falar comigo para saber o que eu tinha. Quando falei que era Hipertensão Pulmonar, ele me olhou e respondeu (lembro exatamente de suas palavras até hoje!): "Não se preocupe! As médicas irão te deixar um pouco sem água, mas você vai ficar bem!". Ninguém tem noção do significado dessas palavras pra mim naquele momento! Não era apenas um consolo, mas me trouxeram uma confiança enorme quando pensei: puxa, aqui eles sabem o que é HP e sabem como tratá-la! Eu vou ficar bem!
Já no dia seguinte veio uma cardiologista fazer um Ecocardiograma. Tá, eu já havia feito pelo menos uma meia dúzia no
hospital anterior, mas estava num novo hospital e eles certamente queriam fazer um novo. Tuuuudo bem! Não é um exame chato de se fazer, é bem tranquilo e indolor. O que me chamou a atenção, de novo, foi a postura da médica. Também me lembro de suas palavras com exatidão: "Vamos descobrir a causa da sua Hipertensão Pulmonar?". Pode parecer uma bobagem, mas essa frase expressa nitidamente uma postura de quem está interessado no caso, em descobrir alguma coisa de fato. E quem procura, acha! Infelizmente não achou a causa, mas descobriu que tenho um
furame oval no coração: um furinho, para os leigos! Ele faz uma ligação entre os átrios do coração. Provavelmente seja congênito. O que acontece é que todo mundo nasce com esse furinho, que se fecha posteriormente em quase todas as pessoas. Não no meu caso. Bem, na hora da descoberta foi uma sensação! Acharam que poderia ser a causa e, se fechado, estaria curada. Mas não foi isso o que aconteceu. A dra. Jaque explicou que, pelo tamanho pequeno, não seria a causa da HP e, se fosse fechado, poderia piorar meu quadro, já complicado. Na verdade ele estava era me fazendo bem: servia como válvula de escape para o sangue, que não conseguia fluir pelas veias pulmonares, obstruídas. O lado negativo é que quando o sangue volta e escapa, ele não passa pelo pulmão e, consequentemente, não recebe oxigênio. Por isso minha saturação sanguínea cai tão facilmente.
Como o hospital é longe de casa, e o Marcos já precisara voltar a trabalhar, nem sempre conseguia ir nas visitas. Então frequentemente minhas primas e primos apareciam por lá para me dar um apoio moral! Que delícia!
Bem, fiquei alí muitos dias, usando uma máscara chamada Venture, que dispensa O2 em grande quantidade. Nossa meta era diminuir aos poucos o fluxo de oxigênio até que pudesse, de preferência, ficar sem ele. Tudo isso regado a muito repouso! Até de falar! Se conversava um pouco mais, já ficava ofegante.
Depois de uns dias naquele isolamento, fui transferida para outra UTI - dessa vez, daquelas em que há vários leitos, um do lado do outro. A TV ficava mais longe e com o volume mais baixo. Mas tinha mais gente e movimento, o que pode ser bom e ruim ao mesmo tempo.
Uma UTI não é um lugar bom para se estar, apesar de imprescindível às vezes. São várias as razões para que não seja um bom lugar, mas uma coisa, em particular, me chamou a atenção: a comida era muito ruim. Eu não tinha restrição alimentar, e mesmo assim serviam aquela comida tradicionalmente insossa, sem graça, sem apelo visual nenhum. No lanche da tarde serviam 2 pãezinhos secos e 1 danone. Às vezes conseguia um contrabando de uma manteiguinha pra passar no pão, rsrsrsrs. Outra coisa que não me incomodou demasiadamente, porque sou muito tranquila com as coisas, mas que é bastante desagradável, é o uso da comadre e o banho de leito. Enfim, quem fica na UTI por um tempo ou perde o pudor ou sofre demais. Eu optei por perder o pudor!
A dra havia pedido que eu usasse o banheiro da UTI, para testar como eu ficava ao fazer esse esforço. Para isso, a enfermeira precisava buscar um pequeno cilindro de o2, me conectar e ir comigo até o banheiro, que ficava há uns 2 metros da minha cama. Era uma aventura! Eu, andando! Me lembro bem que elas não gostavam de fazer isso - faziam caretas, já que não era procedimento padrão alí. Entendo. Mas fico pensando se elas não poderiam ficar feliz de eu estar conseguindo fazer tamanha proeza!
Depois de uns dias, finalmente pude ir para o quarto! Minha mãe foi pra lá pra poder ficar comigo. Eu ainda usava a máscara e ainda precisava de muito repouso. Mas a cada dia que passava, ficava um pouco melhor. Já tomava banho no banheiro, sentada e com a ajuda da enfermeira, claro. Mas já era uma conquista e tanto! Mas não era fácil explicar pra enfermeira que eu não podia tomar banho rapidamente, como ela queria, por causa da falta de ar. Pelo contrário: tudo tinha que ser muito devagar e pausadamente. Ainda tenho dúvidas se ela já entendeu!
O
Marcos ia me visitar de noite, sempre que dava. Era uma enorme alegria poder vê-lo e matar a saudade! Muitos amigos e familiares deram uma passadinha por lá! Que delícia ver pessoas especiais nos dando carinho e atenção. Quem não gosta? Alivia muito toda a chatice do contexto.
Aos domingos, era dia da
Fabíola ir. EBAAA!!! Não é norma do hospital que crianças façam visitas, mas eles entenderam a situação e fizeram vista grossa para o caso, rsrsrs. Criamos uma tradição: eu juntava lanchinhos durante a semana e, quando ela chegava, já ia logo perguntando: "Mãe, tem lanchinho?" Pra uma comilona de mão cheia e que adora suco de caixinha e aqueles pacotinhos de torrada, bolacha e geleia, era um prato cheio! E então ficávamos conversando um tempo. Ela é mesmo uma joia! Não dava trabalho com nada. Até hoje ela fala nos benditos lanchinhos!
Foi nesse período que a dra, Jaque me pediu para fazer um cateterismo. Fiquei com muito medo, baseado naquele (des)conhecimento antiquado do procedimento. Fui muito nervosa para a ala do exame - tinha muito medo. Sabia que era invasivo. Mas sabe que o procedimento em si não é tão horrível? Pelo menos no meu caso, apesar de algum sofrimento por conta da falta de ar e do desconforto normal do exame, não foi tão ruim quanto pensava. Em compensação o pós-exame foi um horror. Eles demoram para extrair o acesso espetado na virilha e eu, que tinha algumas
crises de tosse, acabei ficando com um hematoma gigante e muito dolorido. Acho que, ao tossir, a agulha acabou furando minha artéria. Sofri muito e por vários dias por causa disso. Fora isso, ficar com a perna imóvel e imobilizada por voltas e voltas de esparadrapo como se fosse atadura, até o dia seguinte, não é nada fácil. Vi o amanhecer naquele dia e, no primeiro sinal do primeiro raio de sol, apertei a campainha e pedi encarecidamente que retirassem o curativo, porque já não aguentava mais. UFA!
Bem, depois de mais de mês internada, estava chegando a hora de receber alta! O fluxo de oxigênio já havia reduzido consideravelmente e a máscara havia sido trocada por um cateter nasal comum. Minha saturação também já não caía tanto durante um esforço físico (entende-se por esforço físico neste contexto, caminhar, com o2, pelo corredor do hospital). Só que a alta estava condicionada ao fornecimento de
homecare pelo plano de saúde, em que o2 e fisioterapeuta deveriam ser disponibilizados em minha casa. Aí começa a chatice da burocracia.
Com muita briga e insistência, conseguimos, em uma semana, a liberação do plano. Foi, então, no dia 6 de maio, dia exato em que João completava 1 mês (e quase esse tempo que eu não o via), e ante-véspera do dia das mães, que finalmente pude ir pra casa, após 43 dias de internação! Não tem palavras que possam descrever o sentimento.
Como usuária de o2, precisei ir de ambulância pra casa. Do meio do caminho liguei para a Fabíola, avisando que já estava chegando, e contei que estava indo numa "perua" branca, tipo aquela em que o primo ia pra escola, e que ainda estava usando aquela coisa de fazer inalação. Minha esperança era de que ao avisá-la, ela não tomaria um susto tão grande ao me ver saindo da ambulância, carregada na cadeira de rodas escada acima, com o cateter no nariz. Acho que funcionou!
Cheguei bem na hora do almoço e pude finalmente fazer uma refeição em família! Isso sim não tem preço! Naquela mesma noite, fiz uma estrepolia e fui à
apresentação de Dia das Mães da escola. Isso também não tem preço!