Não sou fã do Raul Seixas (#prontofalei!), mas lembrei dessa frase que ele cantava... eu tive um dia assim... o dia em que a Terra parou... 25 de março de 2011.
Grávida de 7 meses, fazia uma via sacra em vários consultórios médicos, procurando uma resposta para a grande falta de ar que sentia. Vinha acompanhada de muita tosse, palidez e lábios roxos.
Tudo começou no Natal anterior, quando minha sogra percebeu e começou a comentar como eu estava me cansando fácil - fazendo uma atividade nada anormal já demonstrava fadiga. Despreocupada com isso, fui levando. Só que o cansaço começou a aumentar, então comentei com a minha ginecologista, que me falou que seria falta de condicionamento físico. Fazia sentido naquela ocasião, porque eu levava uma vida sedentária e, estando grávida aos 36, quase 37 anos, poderia mesmo estar fora de forma. Comecei a fazer hidro-ginástica.
Só que, de novo, foi aumentando. Eu comecei a não conseguir andar curtas distâncias. Em uma consulta médica da Fabíola, a pediatra dela olhou para mim e comentou que eu não estava bem e deveria consultar, com urgência, um cardiologista que ela me indicaria e pedir um encaixe para aquela semana. E assim eu o fiz.
No consultório, com um eletrocardiograma na mão e após o exame clínico, ele me disse que meu coração estava ótimo e que meu cansaço poderia mesmo ser da gravidez. Mas que como eu o havia procurado ele me viraria do avesso e pediria vários exames de sangue e um Ecocardiograma, que mediria a força do coração.
Logo fiz os exames de sangue, que deram normais (afinal quem não abre seus exames e fica olhando na tabelinha de referência ao lado??? kkkk). Já o Eco eu não estava conseguindo agendar. Por uma série de fatores. Aqui, porque meu plano de saúde não cobria. Alí, porque só teria agendamento para não sei quando. Acolá, porque me perguntavam se era com doppler e eu não conseguia ler a letra do médico (por favor, alguém crie uma lei que obrigue os médicos a darem pedidos médicos impressos em computador!).
Nesse meio tempo, eu corria com a Fabíola, fazendo consultas com neuro-pediatras, para tentar descobrir a causa de algumas coisas estranhas que vinham acontecendo. Fizemos até uma ressonância. Sim, ela tem uma coisa chamada "crises de ausência". Já está controlado.
Já com tão pouco fôlego, guardava o que tinha para esse causo da Fabíola e o trabalho - que também já estava ficando capenga, com muitas ausências minhas.
Consegui marcar o Eco! Finalmente! Para o dia 18 de março. Mais um exame que não daria nada, pensei eu cá com os meus botões. Nesse dia acordei muito mal - a tosse me consumia de uma maneira intolerável e aumentava demais a falta de ar. Liguei para minha médica, que me orientou ir até o hospital e pedir um Raio-X do tórax. Almocei, levei a Fabíola na escola e segui rumo à Santo André.
Ao passar pela triagem do PA do hospital, a enfermeira viu que minha oxigenação do sangue estava em 60 e poucos por cento - é, o normal é cerca de 97%, com mínimo aceitável de 90%. Ela me levou imediatamente à sala da médica, que me examinou e disse que meu pulmão estava limpo, normal. Pedi o Raio-X e ela disse que não precisava, mas pediria para que eu pudesse tirar minha cisma. Mas que antes eu ficaria em repouso no oxigênio até estabilizar. E assim foi. Quando minha oxigenação melhorou, tirei o Raio-X, que estava normalíssimo - segundo ela! Expliquei que, nesse dia, dali a pouco, eu teria um Eco para fazer - tinha até o pedido médico. Ela me disse que o pedido médico não seria problema, porque ela mesma poderia fazer. Tá. Você fez? Nem ela. Me mandou para mais uma sessão de oxigenoterapia e me liberou para ir embora. Alta! Quando cheguei no estacionamento em frente à porta do PA, já não tinha condições de andar até o carro que estava na última vaga, lá no fundo. Pedi gentilmente ao moço que buscasse o carro para mim. Há essa altura, já tinha perdido o horário do Eco - não o fiz no hospital e não o faria no laboratório. Tive que remarcar e a próxima data seria na sexta-feira seguinte - dia 25 de março - o dia em que a Terra parou.
Enquanto isso, fui procurando alguns médicos aqui perto de casa, em Ribeirão, para que, quem sabe, pudessem me ajudar, pois a situação já estava meio fora de controle. Mas o que acontecia é que, quando eu finalmente entrava em seus consultórios após longa espera, eu já não estava pálida, minha boca já não estava roxa e minha falta de ar já não era grande. Então os médicos não viam o que as recepcionistas viam - em qualquer lugar que eu chegava, todos me olhavam apavorados e tentavam me ajudar.
Do otorrino, recebi pedidos de exames mais elaborados, tipo Tomografia, e também a indicação de ver, naquele mesmo dia, o pneumologista. Fui. Era bem perto. Após vários exames de triagem para ver meu quadro alérgico (sim, eu estava com um quadro alérgico nas vias respiratórias superiores), duas inalações e o exame do sopro, ouvi do médico que minha falta de ar era ansiedade da gravidez! Pois é! E ainda me mandou não fazer os exames que o otorrino pediu, porque era bobagem, afinal ele cuidava de todas as grávidas com falta de ar daqui de Ribeirão! O antibiótico que me receitou me deixaria nova em folha em 10 dias, quando eu deveria retornar. Ufa! Isso aconteceu 3 dias antes do dia em que a Terra parou.
Chegou o dia 25 de março. Há essa altura, 32 semanas de gestação. O dia do tal Ecocardiograma. Fui até o laboratório, que fica em São Caetano do Sul, dirigindo, sozinha. O médico iniciou o exame e começou a me fazer várias perguntas, até que perguntou se eu estava acompanhada. Após minha negativa, me disse que eu deveria ligar para o meu marido e pedir que viesse me buscar, porque eu deveria seguir dalí direto para o hospital e não poderia fazer esforço algum. Iria para a UTI tratar uma possível Embolia Pulmonar. Você não sabe o que é isso? E eu nunca tinha ouvido falar. Liguei para o Marcos e tentei, sem sucesso, explicar a situação - precisei passar o telefone para o médico falar. Afinal se as grávidas choram até em comercial de shampoo, imagina numa situação dessas. Em seguida liguei para minha ginecologista e, novamente, falhei em tentar explicar tudo. Novamente passei o telefone para o médico (ah, no final das contas não era Embolia Pulmonar, mas só saberíamos isso bem depois!)
Bem, o médico terminou o exame, ligou para o cardiologista amigo dele pedindo meu encaminhamento àquele mesmo hospital que me liberara uma semana antes sem uma única investigação mais elaborada. Liguei para minhas colegas para avisar que o Chá de Bebê, que seria no dia seguinte, deveria ser cancelado.
O Marcos chegou e me levou ao hospital. Fizemos todo o procedimento da internação.
E assim, dessa maneira e nesse dia, a Terra parou. E começou nossa nova fase de vida.
Este blog é meu canal de divulgação das minhas artes, que podem ser de várias naturezas... as DELÍCIAS, que são embalagens exclusivas de brigadeiro gourmet, os BREGUETES: lembrancinhas confeccionadas em EVA e/ou material reciclável, minhas crônicas, que se dividem em gerais e sobre a minha convivência com a Hipertensão Pulmonar, além da culinária, com receitas e histórias dos meus momentos gourmet em casa. Se alguma coisa te interessou, entre em contato comigo!
Gente, e não é que a música tocou na volta do restaurante!!!! ;)
ResponderExcluirCris, demorei para ler com calma o seu depoimento, e nem sempre conseguimos imaginar, não da forma que você expôs, a via sacra que os pacientes percorrem até um diagnóstico final (imagino que esta hitória ainda tenha pelo menos a parte 2 e 3...). Fiquei constrangida, por ver como é fácil rotularmos um paciente de sedentário, ansioso ou com "piti", e ao mesmo tempo emocionada, por ver como você tem sido guerreira nesta luta e como Deus foi tão maravilhoso em iluminar o cardiologista que fez o seu ecocardiograma "no dia em que a terra parou" (mesmo que o diagnóstico final tenha sido outro) para te encaminhar para um hospital e permitir que você pudesse ter seu filho nos braços, VIVA, e ter completado 1 ano desta luta ao lado das pessoas que você mais ama, seus filhos, seu marido, sua família!!! Estaremos sempre ao seu lado! Com carinho Eloara.
ResponderExcluirPuxa, doutora, muito obrigada.... meu depoimento não foi uma crítica direta, mas mostra realmente o lado vivido por nós pacientes... e te falo que não é mesmo fácil!!! Assim como há médicos maravilhosos e bem preparados, estudiosos e atenciosos como você e a equipe que tem me tratado, e regularmente agradeço a Deus por ter colocado vocês no meu caminho, infelizmente há aqueles que não se empanham muito mesmo... isso existe em todas as áreas, não é mesmo? E sim, há as partes 2 e 3 e etc. por vir... kkkk Agradeço a vc e à equipe do HSP pela atenção, carinho e competência que têm me dispensado! bjs e até amanhã!! rsrs
ExcluirO que você faria se se descobrisse grávida hoje?
ResponderExcluirOlá, Samanta... puxa, que pergunta difícil!!! Tenho um medo horrível só de pensar nisso... peço todos os dias a Deus que não me permita passar por essa decisão... e assim vou levando, me permitindo não saber o que faria...
ExcluirCris, acabei de ler essa primeira parte, quando vi a atualização da segunda. Nem preciso dizer que estou chorando, pois me reconheci aqui nesse relato ... um mês antes de você. Eu internei pela primeira vez em 27/02/2011, e sim, os médicos também se enganam. Eu tossi uma semana inteira, indo todas as noites ao hospital, onde faziam nebulização e eu voltava pra casa sem ter o diagnóstico de pneumonia. Até que no domingo eu demoronei de vez. Ou não, não desmoronamos, estamos aqui ... firmes e fortes :) Mariah
ResponderExcluirOlá, Mariah... acho que praticamente todos os pacientes se viram nessa situação, né, de fazer via sacra sem sucesso... mas, é isso, estamos aqui, firmes e fortes, mesmo que como uma gelatina, hahahaha. bj grande!
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