Deixei da Fabíola na porta da escola naquela sexta-feira, 25 de março de 2011, dei o tradicional beijo de mãe e desejei boa aula, como sempre. Combinamos que eu a buscaria no final da tarde, após voltar do meu exame no laboratório. Só que a falta de ar e a tosse não eram de praxe... já me consumiam a ponto de eu não conseguir andar curtas distâncias sem me escorar ou fazer pausas no trajeto e ficar com os lábios roxos.
Bem, naquele dia, quem foi buscá-la na escola foi a vó Emília, porque a mamãe já estava a caminho do hospital.
Não sei se conseguimos imaginar o que se passou na cabecinha dela, naquela altura, prestes a fazer 4 anos. Minha mãe não voltou pra casa.
Decidimos, sempre buscando viver pautados na verdade, dizer a ela o que estava acontecendo. Claro que não precisamos contar todos os detalhes, mas a verdade. Mamãe estava no hospital tentando sarar da tosse - coisa mais concreta e plausível que ela poderia entender. Ela já vinha me acompanhando e via o quanto eu tossia e passava mal. Muitas vezes me ajudara, com o braço e com as palavras, a subir os 8 degraus que antecedem a porta da sala de casa. "Mamãe, eu te ajudo. Você vai conseguir!". Sim, 4 anos. Sim, de um carinho e atenção invejáveis.
Bem, mamãe já estava no hospital há muitos dias, e nada de voltar pra casa. E nada de poder visitá-la ou vê-la. E o aniversário chegando. Graças a Deus pela vida dos nossos familiares e amigos que se revezavam incansavelmente na tentativa de distraí-la com passeios, visitas aos amigos, enfim, coisas diferentes pra fazer.
Aí veio a segunda notícia: a festinha de aniversário que aconteceria naquela semana não iria acontecer. Havia sido prorrogada. Mas a tia Keyla se encarregou de reunir alguns amiguinhos da escola e improvisar uma festinha... como agradecer?
Bem, nesse intervalo, uma notícia boa: poderia visitar a mamãe no dia do aniversário, 30 de março. Boa? Será? Ver a mamãe numa cadeira de rodas, com uma roupa esquisita e feiosa, usando um treco no nariz... até hoje não sei bem como isso foi processado na cabecinha dela. Fato é que seu rostinho mostrava uma certa apreensão. Sorte que o papai esqueceu de comprar as pilhas para o "levetoque" (laptop), porque assim logo pediu para irem embora para comprar as pilhas.
Outra notícia: o João vai nascer! Seu sonho de ganhar um irmão estaria prestes a acontecer. Mas já? E a mamãe? Como assim? Lá vai a Fabíola para a maternidade no dia 6 de abril aguardar a chegada do seu tesouro. E não é que o João trouxe um boneco bacana pra ela??? O Charlie, irmão da Lola.
Quanta novidade para apenas 13 dias... e o irmão nasceu, mas ainda não ia pra casa... a vó Ana conta que ele se decepcionou bastante quando viu um bebezinho pequenininho, que ainda não sabia brincar, rsrsrs. E o João chegou, mas ainda não posso ver a mamãe. Ela continua tratando a tosse. Será que a chegada do João tem alguma coisa a ver com isso? Quando eles vem pra casa? Quem pode imaginar o que se passava naquela cabecinha.
Três dias depois, com a mamãe já no quarto, ela pode nos visitar... quanta alegria!!! Mas a mamãe continuava com aquela coisa estranha no nariz - a inalação, rsrsrs.
Bem, logo após o final de semana, o João teve alta e voltou pra casa. Pra casa da vovó Emília, porque a mamãe continuava no hospital. Agora em outro, bem mais longe. Como é isso, do neném vir pra casa, mas não vem pra nossa casa e a mamãe não vem, fica por lá??? Confuso...
Mas a maturidade com que lidava com todas essas adversidades era impressionante e comentada. O carinho que tinha com o mais novo membro da família, o irmão tão desejado desde antes de sua fecundação, era enorme. Curtia bastante a companhia do irmão.
Ih, a Páscoa tá chegando... e o coelhinho vai trazer os ovos de chocolate... quem se voluntaria, porque o coelho mor tá no hospital, rsrsrs. Lá vai papai e titias cumprirem a missão... tudo tem que acontecer como de costume... pelo menos o mínimo esperado. Pelo menos alguma coisa. E o coelho veio... missão cumprida! Mas a mamãe não estava lá. Ainda estava no hospital. Vamos levar um ovo pra mamãe??? Ela adora chocolate! Eba!!!
Visitar a mamãe nesse hospital era sempre uma aventura. Longe, demorava bastante pra chegar. Foi até de trem e metrô, uma vez. Adora andar de trem e metrô. E a mamãe sempre guarda um lanchinho: suco de caixinha, torradas e geleia. Até hoje comento sobre isso com a mamãe!!! Eu bem que gostava dessa parte, rsrsrs. Teve um dia que a prima foi junto e ficamos assistindo desenho, na cama da mamãe!
Depois de um longo mês, exato, era hora da mamãe finalmente ir pra casa. A ansiedade era grande... a mamãe iria chegar pro almoço. Mas como ela viria? Ah, ainda bem que ela ligou do caminho e avisou que estava vindo numa perua grande, tipo a perua escolar do Gustavo, só que branca... o carro do hospital. Ah, ela também viria com a inalação no nariz! Sabendo o que esperar, a cena seria um tantinho menos assustadora.
A alegria era muito grande... mamãe e João vindo pra casa! No dia da festinha das mães da escola. Sim, era dia de apresentação, que ela havia ensaiado com muito empenho para mostrar para a mamãe. Como dizer que a mamãe não poderia ir??? Sem chance! Papai, aluga um cilindro de oxigênio portátil, que nós vamos à festa! E lá chegamos. Ela nem se deu conta das dificuldades pelas quais mamãe teve que passar, já que o teatro é no 2o andar e não havia elevador de acesso - só escada, coisa que a mamãe jamais poderia fazer naquele momento. Ainda bem que tinha o papai e o papai do Arthur para carregar a mamãe escada acima. Mas e Fabíola nem viu nada disso. Mas não é assim mesmo? As crianças nem sempre precisam perceber certas dificuldades que passamos... é nosso papel filtrar certas coisas. E naquele ano, pela primeira vez, ela cantava lindamente sua música pras mães, sem chorar e sem pedir o colo da prô... e apresentou sua primeira coreografia de GR... linda, charmosa, gatíssima! Como que a mamãe poderia perder isso??? Como não chorar?
Depois de algumas semanas, finalmente! A festa de aniversário iria acontecer! Já estava tudo comprado, providenciado (desde antes do hospital)... a decoração da Moranguinho era a eleita! Quanta emoção poder proporcionar a tal festinha, mesmo que atrasada... promessa é dívida, e estávamos pagando a nossa... a mamãe, mesmo ainda cansada, conseguiu, com a ajuda de preciosas amigas e cunhada, a preparar tudo. Que privilégio poder contar com pessoas tão especiais! Parabéns pra Fabíolaaaaa!!! É pique, é pique, é pique!!! Vivaaaaaaa!!!! Sopra a vela!
Bem, nossa vida recomeçou, mas tudo muito diferente. Tudo de pernas pro ar. Nada nunca mais foi nem parecido com o que era antes... a não ser o amor. O amor que une a família e faz com que façamos coisas incríveis! O amor que tenta ensinar mesmo nas adversidades. O amor que aprende, mesmo com o sofrimento e a insegurança. O amor que "tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta"!
Este blog é meu canal de divulgação das minhas artes, que podem ser de várias naturezas... as DELÍCIAS, que são embalagens exclusivas de brigadeiro gourmet, os BREGUETES: lembrancinhas confeccionadas em EVA e/ou material reciclável, minhas crônicas, que se dividem em gerais e sobre a minha convivência com a Hipertensão Pulmonar, além da culinária, com receitas e histórias dos meus momentos gourmet em casa. Se alguma coisa te interessou, entre em contato comigo!
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)

.jpg)
Nenhum comentário:
Postar um comentário