Quando estávamos todos, eramos 10 primos: a Carla, Thaís, eu, Patrícia e Carolina (tsc, tú, menina!) eram da ala das meninas e o Beto, Eduardo, Daniel, Edgar e Rafael formavam a rodinha masculina. Algumas panelinhas se criaram em função das idades parecidas, mas isso não nos impedia de muitas vezes brincarmos juntos. Éramos pessoas muito ocupadas por lá:
- Pipa: o Tolô era um jardineiro negão de dentes alvos muito gente fina que fazia de tudo para nos agradar e entreter. Era ele quem ia na vendinha próxima comprar os apetrechos. E também era ele quem construía a pipa para as crianças menores, como eu, e ajudava a empinar.
- Guerra: o que fazer com as amêndoas caídas da amendoeira? Munição, ora! Era só juntar um monte em sacolas e depois se abrigar nas barricadas para se proteger e atacar seus inimigos!
- Corrida de chapinha: pra quem não sabe, chapinha era a tampinha das garrafas de vidro de refrigerante. Na verdade, eram excelentes carros de corrida que disputavam grandes provas em pistas de terra acidentadas cuidadosamente esculpidas no chão. Os trajetos normalmente incluíam túneis, pontes, precipícios, subidas e descidas em montanhas, calombos e tudo o mais que conseguíamos fazer. Mega radical!
- Caça aos morcegos: eu era muito medrosa e sempre ficava dentro de casa só observando pela janela, enquanto meus primos maiores balançavam os cabos de vassoura chamando a atenção dos morcegos, que vinham voando assim que a noite caía.
- Reciclagem: sim, já usávamos essa técnica há mais de 30 anos: vasculhávamos o lixo atrás de embalagens que se transformavam em aviões, paraquedas, óculos e mil apetrechos.
- Chico Bento: a chácara vizinha não tinha exatamente goiabeiras, como o vizinho do Chico, mas tinha muita manga rosa (diferente da nossa), abacaxi e outras coisinhas mais que valiam a pena a aventura da invasão e furto!
- Jardim do Éden: o gramado da frente da casa era praticamente o paraíso: era lá que brincávamos de pega-pega, mãe da rua e todas as variantes dessas brincadeiras de correr.
- Las Vegas é aqui!: tivemos a professora mais carinhosa, amorosa e malandra de todos os tempos! Sim, foi a vó quem nos ensinou a jogar buraco... mas era tão safada que roubava descaradamente de nós!
Fora essas e tantas outras brincadeiras, tínhamos vários clássicos: chocolates que a vó ganhava, guardava no armário e dizia que era "pra hora íntima"... sorte minha e das primas menores, Carol e Paty, que dormíamos no quarto dela e muitas vezes desfrutávamos do momento!
Aliás, nós três fazíamos parte de outra tradição: o treliche de rede onde dormíamos, ao lado da cama da vovó. O problema era quando a Carol dormia em cima sem ter treinado bem a fazer xixi no banheiro! hahaha
E quais dos primos estão servidos com um pedaço de pudim de clara e rosca do rei? Alguém? Ou preferem chupar leite condensado das latas roubadas à noite da dispensa? No frio tinha também leite queimado (hmmm!) e maçãs carameladas no forno! Torradas com manteiga e açúcar - hoje em dia não pode! haha Bolo de laranja com glacê! Ah, que água na boca! Mas nada disso supera a BALA DA VOVÓ... garanto que você nunca ouviu falar ou leu a receita, porque era DELA! A melhor de todas! Especialidade feita com todo amor pra família!
Como não falar da mangueira? Enorme, pomposa, recebia todos os netos em seus galhos: cada um tinha o seu, cativo. Uma vez eu caí... claro que foi gracinha de um primo mais velho danado, né Dudu! O mala jogou uma manga podre na minha cabeça bem na hora em que eu descia... aí soltei os braços e fui quicando feito um saco de batatas mesa e banco abaixo (em volta do tronco havia uma mesa e banco de ripas de madeira). Lá fui eu chorando, com os joelhos ralados...
Meu outro acidente ficou por conta de uma insolação. Sempre íamos a uma praia próxima, que chamávamos de Praia das Conchas. Não sei se era o nome oficial dela, mas a chamávamos assim. Era linda, de águas límpidas e, claro, cheia de conchas! Achávamos de tudo por lá, até estrela do mar! Bem, depois de alguns dias pegando sol, batata: peguei uma insolação que apareceu por conta de um desmaio no colo da vó, na rede. Dias e dias de molho, sem poder fazer um monte de coisa, até que a minha mãe se encheu de me ver privada de fazer e comer muitas coisas sem a gripe passar, e me liberou tudo, hehe. Aí sarei!
Quantos Natais maravilhosos, acampamento no jardim, explorações da natureza, passeios na égua, banhos na caixa d'água com cuia, broncas e mimos da babá (imaginem a Tia Anastácia, do Sítio do Pica-pau Amarelo!) e frutas como o cajú, cajá, murici, ingá, tamarino, romã, goiaba... era muita alegria e muita coisa boa reunida num só lugar!
Final da tarde, mais precisamente às 5 horas, era hora do banho... e assim que a Bá avisava, começávamos a gritar a ordem da fila: "último!"... "penúltimo!"... "antepenúltimo!"... porque depois fechávamos a casa e era hora de ficarmos limpos, lá dentro!
Tempos que não voltarão na vida real, mas que constantemente voltam à minha memória - e tenho certeza absoluta que na dos meus primos também! Acho que tivemos a melhor infância do mundo, com a melhor vó do mundo! E por isso que tento, dentro da nova realidade e possibilidades que temos hoje, proporcionar uma infância gostosa pros meus filhos, com as melhores memórias possíveis, pra que cresçam com a mesma sensação que eu cresci, de total felicidade!
Querida Cris,
ResponderExcluirFiquei muito emocionado com seu Post. Além de viajar em cada passagem, fui arremetido a outras historias e detalhes daquela época no Sítio da Vovó, que mais parecia, um conto de Monteiro Lobato, o qual também fez parte dessa história, só que real.
Obrigado pelo presente!
Beijos do primo Beto
Meu querido, muito obrigada pelas palavras carinhosas!!! Fico muito feliz que tenha curtido as lembranças! Tive o privilégio de ter vivido aqueles anos com você e nossos primos nesse conto de fadas mais que real! beijos!
ExcluirBeto, acabei de lembrar de uma cavalgada que você fez comigo, me levando na garupa da égua... lembro até do trajeto: fomos para o fundo do terreno e passamos para o terreno de trás, que era de alguém conhecido, não lembro, e saímos numa outra estradinha de terra... foi sensacional!
ExcluirVerdade...Quem acabou comprando o sitio de traz, foi o Tio Almir.
ExcluirTenho saudades da Negrita(égua).
Para montarmos, eu tinha que ir buscá-la no sitio onde o Tolô morava. Atravessávamos por um matagal que passava da minha cabeça. Fazia um cabresto na Negrita com a própria corda que a amarrava e a conduzia montado para todos montarem...eu adorava isso. A conta depois era tirar um monte de Carrapatos do corpo.
Negrita! Isso mesmo! Não tava conseguindo lembrar! Lembro que ela não ficava no sítio, mas não sabia que ficava no sítio do Tolô! Muito bom lembrar de tudo isso!
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